Militares: Alencar vai a Lula
A portas fechadas, vice tenta convencer o presidente da urgência do aumento nos quartéis
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente José Alencar se reuniram ontem à noite, a portas fechadas, para discutir o reajuste dos militares, mas não anunciaram definição sobre o índice de aumento dos soldos, nem data. Hoje deve haver nova reunião, desta vez envolvendo a equipe econômica, com a presença dos ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e do Planejamento, Paulo Bernardo.Ao fim do encontro entre Lula e Alencar, não houve pronunciamento, mas assessores confirmaram que a reivindicação dos militares dominou a conversa. Alencar teria tentado uma decisão direta de Lula, sem a interferência da área econômica, sempre disposta a dizer não. O vice-presidente, também ministro da Defesa, estaria preocupado com alertas que vem recebendo do comando sobre riscos de indisciplina nos quartéis.
Na sexta-feira, Alencar divulgou nota ao Exército informando que ontem teria o encontro com o presidente, que serviria como preliminar “à reunião decisiva prevista para se realizar na próxima semana (hoje)”.
Alencar e os comandantes das Três Forças rejeitam a proposta de Palocci e Bernardo de dar aumento de apenas 3% agora e 6% para o ano que vem, sem data definida. Alencar insistiu na proposta defendida pelos militares – aumento de 13%, retroativo a julho, e mais 10% a partir de janeiro do ano que vem. Ao fim do encontro da semana passada, o comando militar demonstrou publicamente sua irritação. O comandante da Aeronáutica, Luís Carlos Bueno, disse que, para a área econômica, não há proposta viável. “Para eles, viável seria 0%”, reclamou.
Teresa Cristina Fayal
Militares temem indisciplinaO DIA
Comandantes alertam José Alencar sobre risco de insubordinação nos quartéis por causa da indefinição do aumento
Comandantes das Forças Armadas estão alertando ao ministro da Defesa e vice-presidente da República, José Alencar, para o clima de inquietação e risco de insubordinação nos quartéis por causa da indefinição sobre o reajuste dos soldos. Queixam-se da crescente pressão das tropas sobre todas as cadeias de comando.
Esse foi o motivo que levou Alencar a explicar por meio de comunicado interno, na sexta-feira, por que o anúncio do aumento foi novamente adiado. Há preocupação com ações destemperadas por parte do pessoal da ativa. Um oficial lembra que, se houver ato de indisciplina na ativa, os comandantes, em todos os níveis, terão que determinar punição, para garantir a hierarquia e o regulamento. “O problema é que se esse ato extremo for necessário, as conseqüências serão imprevisíveis”, alerta o oficial.
Manifestações previstas para o Dia do SoldadoAlencar já foi avisado sobre a quantidade de e-mails e informações chegando aos comandos, tratando de agitação nos quartéis, a ser desencadeada pelo pessoal da reserva. A primeira está prevista para 25 de agosto, Dia do Soldado, e a segunda, para 7 de Setembro, data da Independência. O temor é que a ativa dê apoio.
Militares insistem nos 23% prometidos até março, concordando com duas parcelas (13% agora e 10% em janeiro). A área econômica quer dar 3% e 6% no ano que vem, mas sem data definida. Presidentes dos clubes militares (Exército, Marinha e Aeronáutica) já divulgaram advertência sobre o risco de quebra da disciplina.
Pressão dos militares
Os presidentes dos clubes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica divulgaram, neste fim de semana, um “alerta” sobre a possibilidade da quebra da disciplina. Nele, advertem que “a relutância (do governo) em atender o que pleiteiam os militares poderá levá-los a uma situação de desespero, de desalento e de descrença com sérios riscos para a hierarquia e a disciplina das Forças Armadas”.
O clima dos quartéis está próximo da ebulição porque o governo não cumpriu a promessa de reajuste salarial de 23% feita em março passado. O alerta é assinado pelos três presidentes dos clubes: general Luiz Gonzaga Lessa, brigadeiro Ivan Frota e almirante José Júlio Pedrosa. Eles atribuem a “insensibilidade” do governo de não atender o pleito a “um óbvio revanchismo” ou à tentativa de “desmoralizar as Forças Armadas”.
Uma nova reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Defesa, José Alencar, deve ser realizada hoje para discutir o tema, mas uma decisão final dependerá de um novo encontro com os ministros da área econômica que estão “empurrando com a barriga” uma solução para o impasse. Contra os 23% a serem concedidos em duas vezes, a área econômica oferece 3% em setembro e 5% no ano que vem, o que é considerado inaceitável pelos militares.
CorrupçãoAo anunciar a divulgação do alerta no site do Clube da Aeronáutica, o brigadeiro Frota foi mais longe nas advertências: “Cuidado, companheiros. Não mordam a isca adotando medidas isoladas extremas que possam nos desunir. É exatamente isto que eles querem”. O brigadeiro lembrou ainda que “os clubes Naval, Militar e de Aeronáutica estão solidários e coesos com os chefes militares e já se movimentam para a adotar ações organizadas, exigindo mais respeito por parte deste governo, envolvido no vergonhoso processo de corrupção que assola o país”.
Completando o seu “alerta vermelho”, o brigadeiro Frota “alerta aos que pretendem provocar uma fratura inconstitucional em nosso país com o recurso de desespero para estancar o inexorável processo de implosão do partido governista”.
No alerta à Nação, que se dirige também à oposição, conforme explicam os militares, os presidentes dos clubes ressaltam que “enganam-se aqueles que, tentando asfixiá-los com baixos soldos e limitados orçamentos, possam julgá-los como algo descartável”, acrescentando que, “como no passado, somos forças vivas, atuantes em todo processo evolutivo da nação”.
Eles prosseguem salientando ainda que “silentes, não estamos ausentes ou indiferentes ao que se passa no país”. E concluem: “A coesão entre os seus membros é alicerçada num componente moral que, a despeito das dificuldades conjunturais, aglutinam os seus integrantes – oficiais e praças, ativos e inativos – em direção aos objetivos maiores definidos na missão constitucional que, um dia, juramos defender mesmo com o sacrifício da própria vida”.
Lula e Alencar discutem aumento dos militaresBRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente José Alencar ficaram reunidos por mais de duas horas nesta segunda-feira para discutir o reajuste dos salários dos militares. Mas, segundo assessores, a reunião ainda não foi conclusiva e, nesta terça-feira, Lula vai se reunir com os ministros da área econômica, Antonio Palocci, da Fazenda, e Paulo Bernardo, do Planejamento, para continuar discutindo o assunto.
Na semana passada, José Alencar e representantes das Forças Armadas e da equipe econômica discutiram o reajuste, mas não chegaram a acordo. A equipe econômica apresentou uma proposta abaixo da sugerida por Alencar. Os militares cobram uma reposição de 23%, que foi prometida no ano passado pelo então ministro da Defesa, José Viegas.
Diante do argumento da equipe econômica de que não há recursos para pagar os 23%, Alencar propôs dividir o aumento em duas parcelas: 13% neste ano e 10% a partir de janeiro de 2006. A equipe econômica argumenta que os 13% neste ano representariam R$ 1,2 bilhão de gasto.
Cristiane Jungblut - O Globo