PROTESTOS, AGITAÇÃO E RESISTÊNCIA EM BRASÍLIA.

18 de abril de 2005.

Mulheres de militares aproveitaram mais uma cerimônia pública reunindo o presidente Lula, o ministro da Defesa, José Alencar, e os comandantes militares para exigir o aumento de 23% nos soldos. Houve muita gritaria, agitação e resistência de manifestantes.
Segundo a vice-presidente da Associação Nacional das Esposas de Militares, Marina Pavaresco, as manifestantes queriam ser recebidas pelo presidente Lula, mas acabaram sendo ouvidas, no Setor Militar Urbano, longe do palanque oficial, pelo general Marius Teixeira Neto, comandante do Planalto Central.
De acordo com Marina, dois militares já se suicidaram e outro tentou suicídio por causa de dívidas acumuladas. A informação foi contestada pelo general Teixeira Neto. Segundo o comandante, que tentou minimizar o fato, o que motivou os três casos foram problemas pessoais. Teixeira Neto disse que vai levar ao presidente Lula o pedido de audiência feito pelas mulheres.

Entre os manifestantes que cobraram melhores salários aos militares, um chamou a atenção. O sargento Cardoso, 38, como se identificou, sacou do bolso seu contracheque de R$ 1.140 e gritou: "Sou sargento da Aeronáutica".
Sua atitude foi inusitada pelo fato de a maioria dos militares não ter ido ao local por causa de uma eventual retaliação de seus superiores nas Forças Armadas.
O código disciplinar militar não permite tal tipo de protesto. As mulheres de militares que participavam do ato o chamaram de "corajoso, corajoso!!!

 

 

O protesto das mulheres durante a comemoração dos 357 anos do Exército, ontem em Brasília, foi mais acirrado que os anteriores. Uma das manifestantes teve que ser atendida pelo serviço médico no local. O ato ocorreu longe do palanque onde estavam Lula, Alencar e os comandantes das Forças Armadas, mas pôde ser percebido por eles.

 

 

 

Na semana passada, Alencar chegou a reunir os comandantes militares e o ministro-chefe da Casa Civil para tentar sensibilizar o Governo. O encontro foi um tiro n'água porque não teve a presença do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que seria o maior opositor ao reajuste, por causa dos compromissos fiscais.

VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHAS

 

 

Mulheres de militares pedem mensalão e impeachment
BRASÍLIA

Depois de promoverem uma manifestação diante do Grupamento de Fuzileiros Navais, onde o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, participava de solenidade em comemoração ao aniversário da Batalha Naval do Riachuelo, cerca de 50 mulheres de militares que reivindicam reajuste de soldos para os maridos se dirigiram de ônibus ao Palácio do Planalto, onde deram um susto em vários seguranças. Elas desceram do ônibus na rua situada entre a Praça dos Três Poderes e o palácio e caminharam até o espelho d'água batendo em panelas vazias, apitando e gritando "Queremos mensalão" e "Não somos idiotas, somos patriotas". Uma das mulheres, Ivone Luzardo, usava um megafone e gritava: "Impeachment!"Ivone anunciou ainda que hoje começará um movimento para recolher assinaturas da população pela cassação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Queremos moralizar o nosso País porque não podemos permitir que o dinheiro público continue a ir embora pelo ralo", afirmou a presidente da União Nacional das Esposas de Militares das Forças Armadas (Unenfa). Segundo ela, o ônibus em que as mulheres chegaram em frente ao Palácio do Planalto, representava um cavalo de Tróia e este manifesto significou "o início do processo de impeachment" de Lula.Quando as mulheres desembarcaram em local proibido, em frente ao Planalto, os seguranças, temerosos de que elas entrassem no palácio, começaram a surgir e, ao chegarem perto delas, começou um empurra-empurra. Com o tumulto, as mulheres passaram a encher as panelas no espelho d'água e dificultavam a aproximação dos seguranças jogando água contra eles. Estes conseguiram cercar o espelho d'água, e a situação acalmou-se. "Satisfeitas com o sucesso do protesto", as manifestantes retiraram-se a pé, dirigindo-se às barracas onde estão acampadas há mais de 40 dias, no gramado da Esplanada dos Ministérios.Pela manhã, elas tentaram barrar a entrada de autoridades no Grupamento de Fuzileiros Navais, até mesmo de Alencar. Durante toda a cerimônia, elas gritavam diversas palavras de ordem, tentando atrapalhar a solenidade.Durante o coquetel realizado ao fim da condecoração das autoridades presentes, Ivone conseguiu encaminhar ao vice-presidente o quarto ofício das mulheres ao governo, no qual reapresentam as reivindicações. Segundo ela, Alencar mandou informar que irá recebê-las na próxima semana.As representantes das mulheres protocolaram ontem um novo ofício no Planalto, pedindo audiência com Lula e o cumprimento da promessa do pagamento da reposição salarial de 23%. Apesar de as mulheres estarem causando constrangimento a Lula, que esta semana cancelou o segundo compromisso por onde poderia cruzar com elas, as autoridades militares classificam o movimento como "democrático", a exemplo do que acontece com outras autoridades.

Comandante da Marinha se queixa do governo e pede reajuste

BRASÍLIA - Dando o tom da alta temperatura dos quartéis, o comandante da Marinha, almirante Roberto de Guimarães Carvalho, advertiu ontem para a situação das Forças Armadas e reclamou um reajuste salarial dos funcionários públicos militares e civis, bem como a liberação de recursos para reaparelhamento da força. As declarações foram feitas na cerimônia alusiva ao aniversário de 140 anos da Batalha do Riachuelo, na ordem do dia e, depois, em entrevista.
Segundo o comandante da Marinha, "há uma preocupação" de que as manifestações que hoje estão nas ruas possam refletir nos quartéis. Indagado até quando seria possível segurar a tropa, o comandante, que assinou uma ordem do dia intitulada "inimigo à vista", respondeu: "Nós estamos contendo a tropa. Há uma insatisfação e existe um pleito, que é justo e reconhecido pelo próprio presidente da República." Em seguida, completou afirmando que todos aguardam uma solução para a questão.
O almirante, que comentou que, "como brasileiro" está preocupado com a situação política do Brasil, ao ser indagado se a temperatura nos quartéis estava subindo, respondeu: "Nos quartéis, não. Mas na rua, na movimentação, nestes protestos."
Ele referia-se ao protesto das mulheres dos militares que, do lado de fora do Grupamento de Fuzileiros Navais, gritavam por melhores salários para os maridos e pediam o impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas o comandante da Marinha assegurou que as mulheres "estão exercendo o direito delas", assim como considera também um direito dos militares da reserva voltarem a falar sobre questões políticas e fazerem críticas ao governo, como fez o presidente do Clube Militar, em duro editorial criticando a corrupção no governo, numa revista que circula no meio militar.
Questionado se a voz da reserva refletia o que pensava os militares da ativa, o comandante declarou: "É uma voz da reserva e a outra parte é uma conclusão sua." Além de pedir o pagamento de "recuperação de perdas" de 36%, o almirante Roberto Carvalho defendeu que o orçamento da Marinha seja, pelo menos, dobrado.
"E não é dobrar o (orçamento) deste ano e do ano que vem, não. É dobrar por um período razoável", apelou o almirante, ao salientar que, somente assim será possível melhorar as condições da Força. A Marinha tem hoje um orçamento previsto de R$ 1,1 bilhão para 2005, valor que não se sabe se será totalmente cumprido.
Apesar de a ordem do dia ser intitulada de "inimigo à vista", e, em seguida, tratar das "sérias dificuldades" da Força, o comandante da Marinha negou que o inimigo seja o governo ou a área econômica, que nega aumento salarial e dinheiro para a manutenção dos meios navais.
Ele disse que se referia ao Paraguai, que era o inimigo de 1865, e ao vigia da Força Naval brasileira que alertou ao Almirante Barroso, patrono da Marinha, da ameaça que se aproximava. Só que, em seguida, o almirante Roberto de Carvalho afirmou que, embora estejamos há um longo período sem envolvimento em conflitos e que os inimigos são inexistentes e as ameaças claramente configuradas, "não devemos nos iludir com esta falsa sensação de segurança, pois ela também ocorreu entre Riachuelo e a Primeira Guerra Mundial e entre os dois conflitos mundiais". Por isso, acrescentou, "temos a obrigação de não esquecer as lições da história".
Na presença, entre outros, do vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, e do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), o comandante da Marinha passou a falar das dificuldades enfrentadas pela força, que classificou como "bastante sérias e implicando em riscos", embora todas de conhecimento dos escalões superiores.
Em seguida, o almirante, observando que, para sanar as dificuldades na força, é necessária a "urgente recuperação do poder aquisitivo da remuneração dos militares e dos servidores civis", salientou que é preciso também "possibilitar uma melhora dos patamares financeiros dos orçamentos da Força, atuais e futuros, sem postergação do atendimento aos problemas emergenciais".
Para ele, as soluções devem prever ainda um programa de reaparelhamento que garanta a substituição de meios já retirados de atividade e para substituir equipamentos obsoletos. "Isso é vital para a Marinha", completou ele, dizendo que "o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever".
O almirante disse não interpretar a ausência de Lula à cerimônia como falta de atenção às Forças Armadas, já que esta é a data principal da Marinha. "Mas, é lógico, gostaríamos que ele estivesse aqui", acrescentou.

Lula determina que área econômica estude reivindicação

BRASÍLIA - Preocupado com a subida da temperatura nos quartéis por causa das constantes queixas e manifestações por aumento salarial e mais recursos para as Forças Armadas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou o vice presidente, José Alencar, e os ministros do Planejamento, Paulo Bernardo, e o interino da Fazenda, Murilo Portugal, para discutir a possibilidade de concessão de um socorro aos militares.
A reunião no Planalto foi rápida, mas o presidente pediu à área econômica que faça novos estudos para verificar se é possível conceder algum aumento, embora tenha voltado a ouvir que, neste momento, é impossível. Após o encontro com Lula, outra reunião aconteceu entre Alencar e Paulo Bernardo, e mais tarde, a equipe econômica voltou a se encontrar com o pessoal do Ministério da Defesa. Mais cedo, em mensagem à Marinha, Lula, na tentativa de acalmar a tropa, afirmou que "é um compromisso de seu governo" a recuperação do poder aquisitivo dos militares e dos seus equipamentos.
Antes de seguir para o encontro com Lula, Alencar disse que "acha possível" que algum tipo de reajuste será concedido "porque eles estão pedindo recuperação parcial de perdas e não aumento". Alencar contou que tratou deste assunto na quinta-feira com Lula, quando o presidente reiterou que "sabe que há defasagem nos soldos, que precisa ser corrigido" e pediu que ele voltasse lá para discutir o assunto. "Estou lutando por isso", disse ele, sem querer prometer quando o aumento será dado, mas garantindo que ele ocorrerá "ainda este ano".
Durante a cerimônia, um locutor oficial leu a mensagem encaminhada pelo presidente Lula, na qual reconhecia que é preciso cuidar das Forças Armadas, "garantindo-lhes um poder dissuasório mínimo, compatível com a estatura que pretendemos ter no cenário internacional".
Em sua mensagem, Lula lembrou que "o caminho a percorrer (para a melhoria das condições nas forças) é longo e árduo", justificando, que o Estado brasileiro foi submetido a um desmonte nos últimos anos. "Ele passa pela recuperação do poder aquisitivo da remuneração de todos aqueles que trabalham na defesa da Nação, militares e civis", comentou o presidente, acrescentando que ela passa também pelo "estabelecimento de novos patamares orçamentários, que permitam a correta manutenção e operação dos meios existentes e, no caso específico da Marinha, pela imperiosa necessidade de reaparelhamento".
Para Lula, somente assim, "as Forças Armadas, e em especial da Marinha do Brasil, cientes dos valores da democracia, poderão trabalhar para a nossa soberania, propiciando ainda condições para a manutenção da paz e o bem estar social do povo brasileiro".
Ainda em um gesto de agrado aos militares, o presidente Lula encaminhou uma carta ao comandante das Forças de Paz no Haiti, general Augusto Heleno Ribeiro, falando do seu orgulho pelo modo como as tropas brasileiras e as de outras nacionalidades sob o seu comando e ressaltando a missão de "grande delicadeza política e de enorme complexidade militar".
Os militares querem 23% de reajuste. A folha de pagamento anual é de R$ 22 bilhões. O vice-presidente voltou a dizer que o pleito está sendo estudado "com carinho".

http://www.tribunadaimprensa.com.br/index.htm

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Rodrigues-mrs